Title image

Proxemia e neurociências

de Isabelle Sabrié

Um princípio de “paz neurobiológica” observado na floresta amazônica !

A proxemia que fundamenta a harmonia rítmico-espacial é um fenômeno natural que pude observar durante mais de 12 anos de residência na floresta amazônica. A proxemia é « uma disciplina científica que estuda a organização significante do espaço das diferentes espécies animais e em especial da espécie humana[1] ». Primeiramente, foi observada cientificamente por estudos estatísticos de comportamentos no século XX [2], e depois pela neurociência da amígdala cerebral em 2009[3].

A proxemia mostrou que num grupo de animais ou humanos, as distâncias entre os indivíduos não são dadas ao acaso, mas muito precisas. Elas são determinadas por regras específicas, as de “distâncias interpessoais”, e decididas após a “consulta” de nossa amígdala cerebral. Analizando se a presença de um ser vivo perto de nós é um perigo, se é neutra ou se pode gerar algum benefício, adaptamos a distância física entre esses seres e nós, nos aproximando deles, permanecendo na mesma distância ou possivelmente correndo longe deles.

A amígdala cerebral é a que analiza as presenças, seus movimentos e seus objetivos, para tomar uma decisão sobre nossa futura posição no espaço. Primeiro, uma medida da distância física entre nós e os outros seres vivos tem que ser realizada, tendo por fim a definição correta de nossa posição no espaço e a preparação correta de nosso próximo movimento. Este “cálculo” de distâncias é feito pelo nosso cérebro, que analiza nossas localizações no passado, no presente e no futuro. E a amígadala cerebral toma sua decisão às vezes mais rápido que nossa consciência, em caso de perigo físico, por exemplo.

A descoberta recente (2009) do papel da amígdala cerebral foi uma confirmação fascinante da minha primeira intuição, que detectava os princípios de uma “paz mundial” materializados nesse equilíbrio sonoro multipolar ! Toda vez que a amígdala cerebral decide sobre a posição espaço-temporal a mais segura para nossa pessoa, considerada como o “centro” de um mundo de muitos seres em movimento, a amígdala constroi espontaneamente um “equilíbrio estratégico multipolar” para dividir o espaço físico, como no exemplo do vagão de trem. A proxemia desempenha de fato um papel fundamental para a nossa paz interior e exterior.

Concernindo a harmonia rítmico-espacial, um som alto e inesperado vindo de trás sem podermos ver a sua fonte causa uma sensação de perigo potencial que ativa automaticamente a amígdala cerebral humana e seus sistemas de defesa. Esse fato, que não poderia ocorrer em uma situação comum de concerto em que todos os sons vêm do palco na frente dos ouvintes, pode ocorrer durante um concerto espacializado em que os sons são emitidos na frente, mas também atrás, nas laterais a esquerda, direita, acima ou abaixo por fontes sonoras fora do nosso alcance visual.

A harmonia rítmico-espacial, ao equilibrar os sons no espaço, permite que os ouvintes experimentem as surpresas e desequilíbrios temporários da “vida” musical com relativa tranquilidade, sem causar fortes alertas físicos à amígdala cerebral, mas também, sem reduzir as asperezas ou a suavidade da composição. E, é claro, aumenta nossa consciência do mundo, pela adição dos mundos de “lado esquerda-direita-atrás-cima-baixo” à percepção áudio e visual frontal do público.

A harmonia rítmico-espacial é então algum tipo de “princípio de paz neurobiológica”! Equilibra um mundo multipolar que compreende uma grande diversidade de seres e movimentos sonoros simultâneos. E esse equilíbrio de distâncias físicas entre nós, os seres e os movimentos sonoros também é uma “harmonia” com nossa natureza neurobiológica.


[1]https://www.cnrtl.fr/definition/prox%C3%A9mie
[2] The hidden dimension, Edward T Hall, Garden City,N.Y, Doubleday 1966.
[3] Kennedy, Daniel P et al. “Personal space regulation by the human amygdala.”
Nature neuroscience vol. 12,10 (2009): 1226-7. doi:10.1038/nn.2381. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2753689/