A melhor maneira de escutar as músicas de harmonia rítmico–espacial é o concerto ao vivo, com músicos espacializados em lugares precisos de uma sala de concerto, ou de um Teatro « à italiana ».
As gravações multicanais de músicas mistas, difundidas numa sala de cinéma Dolby Atmos, 5.1 ou 7.1, ou em outros espaços tecnicamente adaptados, rendem bem esse tipo de música : por exemplo, a apresentação realizada em Brasília em janeiro de 2020, foi difundida em multicanal 6.0 ao ar livre, ao vivo pela compositora.
As gravações multicanais comercializadas, que usem o sistema “DolbyAtmos”, 7.1 ou 5.1 em Home cinemas, também são adaptadas para render a sutileza dos equilíbrios espaço-temporais multipolares das músicas de harmonia ritmico-espacial.
A gravação ambissônica, ou eventualmente binaural, permite ouvir a espacialização da harmonia rítmico-espacial, com fones de ouvido.
Até 2026, infelizmente, as condições necessárias para realizar uma gravação de qualidade com músicos humanos (ensaios, sala, micros ambissônicos ou multicanal), não puderam ser reunidas.
Eu comecei a realizar algumas versões em estéreo (2 canais, esquerda- direita) durante a pandemia, quando as perspectivas de concerto ao vivo foram suspensas. Tinha testado os software de espacialização musical mais amplamente comercializados. Mas até 2026, nenhum dos que testei conseguiu render corretamente a percepção espacial auditiva que diferencia os sons emitidos na frente dos ouvintes, dos sons emitidos atrás deles. Geralmente, quando percebemos bem a localização dos sons emitidos atrás, perde-se a percepção da frente, e inversamente. Ao contrário, na realidade de uma difusão em multicanal, ou de um concerto espacializado com músicos humanos ao vivo, a diferença é evidente, e indispensável para os equilíbrios espaço-temporais multipolares das músicas de harmonia rítmico-espacial.
Nessa situação, tentei render o equilíbrio espacial através de gravações estéreos, usando outros meios. Privilegiei a noção “perto-longe”, em vez de “frente-atrás”. Apesar da supressão da percepção frente-atrás, a localização das fontes sonoras no espaço, escutada com fones de ouvido, ficou satisfatória. O prazer do “equilíbrio espacial” e das respostas sonoras no espaço, que fundamentam a harmonia rítmico–espacial, quase puderam ser sentidos, em especial nos extratos em estéreo do computador tocando a Sinfonia–balé Cenas da Amazônia.
Entretanto, uma gravação em estéreo de músicas de harmonia rítmico-espacial continua tão diferente do original, quanto uma redução para piano é diferente da sua versão orquestral. A redução pode mostrar as estruturas da obra, porém não representa sua realidade musical de timbres encantadores. Da mesma maneira, as gravações em estéreo de minhas músicas podem mostrar a estrutura das obras, mas não representam a realidade de seus equílibrios espaciais originais. Nada pode se comparar com a perseguição predador-presa entre as paredes do Teatro, na cena “Jungle”, nº3 das Cenas da Amazônia, escutada ao vivo !
A harmonia rítmico-espacial é também perceptível na Natureza. Em qualquer floresta do mundo, ao amanhecer ou ao pôr do sol, quando muitos animais se expressam ao mesmo tempo, cada um pode observar estes fenômenos:
– ao buscar um beat nos sons da floresta, se apercebemos a que ponto os animais são ritmicamente precisos no “tempo”, bem como suas entradas sonoras e as durações de seus silêncios. É a sincronização natural dos sons biofônicos, que é a base temporal da harmonia rítmico-espacial.
– ao observar visualmente, aonde se localizam os animais uns em relação aos outros, podemos perceber a forma como o equilíbrio espacial entre as fontes sonoras biofônicas se realiza : é a proxemia física.
– Com uma observação audiovisual, percebemos como esta posição proxêmica no espaço físico permite a cada animal ser ouvido muito melhor, no meio de todos os outros. Se todos “falassem ao mesmo tempo”, e no mesmo lugar, seria muito mais difícil distinguir cada som, e então cada animal. Ao “falar” em momentos diferentes, de lugares diferentes, a distinção sonora de cada animal no meio dos outros é otimizada. E se a posição rítmica dos sons emitidos (a proxemia temporal [1]) corresponde à posição no espaço dos animais, a distinção de cada animal no meio dos outros é otimizada ainda mais.
Para concluir, esta reflexão sobre nossas multi-vidas urbanas e tecnológicas: experimentamos diariamente a harmonia ou a desarmonia rítmico-espacial sem estarmos conscientes disso. Por exemplo, uma cena realista do século XXI: a televisão é discretamente ligada na parede à nossa frente enquanto o rádio toca uma música do gabinete à esquerda, uma pessoa fala conosco sentada à direita de nossa cadeira, o som do computador ecoa da mesa, a mensagem que o telefone acaba de receber é ouvida em nossa mão direita e, ao mesmo tempo, a pequena música do facebook sinaliza uma nova mensagem.
Estes são os dados sonoros complexos, muito recentes e simultâneos que animam nossa vida tecnológica diária no século XXI, na mais inconsciente harmonia ou desarmonia rítmico-espacial!
[1] Estética da composição, Reflexões e pesquisas transdisciplinares para o século XXI, Isabelle Sabrié, 2012. Inédito, todos os direitos protegidos.